04
jan
09

O SONHO E A MULTIDÃO INCONSCIENTE DE SI: O SONHO É UMA REALIDADE PARA QUEM SABE SONHAR

Numa noite recente sonhei que estava nu caminhando por uma longa estrada no sentido contrário ao de uma multidão. Eu não sabia naquele momento porque caminhava no sentido oposto deles, mas sentia que tinha de continuar assim: nu e sozinho! Olhei para cada rosto que passava. Em cada um tentei encontrar uma razão, um motivo que me desse a certeza de que estava seguindo a natureza correta da vida. Vi em cada um os passos apressados em busca de uma finalidade da vida. Então, me indaguei se todos eles seguiam em direção a finalidade da vida então a minha direção seria o princípio da vida, da existência de eu estar nesse mundo? Mas, como eu poderia saber onde está o fim e o princípio da vida? Como podemos distinguir o fim do início? E se eu estivesse certo, a maioria estaria seguindo por um caminho de desvio do princípio explicador da vida. Era preciso agir e refletir, foi aí que perguntei a um senhor que caminhava com a multidão:
– Por que vocês caminham nessa direção?
O que ele me respondeu:
– “Não te disseram que a vida só tem sentido verdadeiro quando caminhamos todos juntos?”.
– Não entendo porque teríamos que seguir juntos se nascemos aparentemente separados? – respondi.
– É porque juntos temos a melhor condição de não nos perdermos? – respondeu.
– Mas perder de que? – perguntei.
– Perder a consciência coletiva – respondeu o senhor.
– Ainda não entendi – respondi.
– Você saberá quando chegar ao fim dessa longa caminhada – afirmou com convicção o senhor.
Decidi continuar no meu caminho e iniciei uma reflexão interior. O medo de perder a consciência coletiva seria o impulso natural para a sobrevivência da espécie humana? Cada um de nós deve estar sendo guiado pelo impulso natural de manter a consciência coletiva desperta em como ser humano, por isso segue automaticamente a natureza do conjunto, da força que nos une enquanto espécie: o medo de perder a consciência do que são e do que poderão mantê-los coletivamente humanos no futuro!
Então, vi um jovem seguindo a multidão e indaguei novamente:
Por que vocês caminham nessa direção? O que ele me respondeu:
– Não te disseram que seguindo a multidão estaremos fortalecidos pela coragem de todos?
– Não entendo por que a coragem de todos me suportaria viver se ao nascer não tinha garantia nenhuma de que iria conseguir sobreviver em paz nesse mundo?
– É porque juntos somos fortes suficientes para enfrentarmos a precariedade da vida física – respondeu.
– Ainda não entendi porque tenho que vencer o que ainda não sei o que vou encontrar pela frente. Por que eu teria que me pré-ocupar, ou seja, me ocupar antes do tempo oportuno?
Deixei o jovem para trás e iniciei uma reflexão: Será que o medo de perder a consciência coletiva está associado a necessidade de garantir a permanência do ser na coragem externada por todos? Em outras palavras, será que nascemos fracos e indefesos e por isso naturalmente nos adaptamos a idéia de que não há saída para a sobrevivência a não ser se apoiar na coragem do grupo? A resposta da vida, então, se resumiria na superação de uma idéia coletiva de que existe um potencial fora de nós que destrói a nossa condição fraca de humano? O que se explicaria a adesão às massas (e de suas lutas) e não o caráter pessoal da existência.
Procurei prestar atenção nos rostos e modos de comportamento de cada um. Havia um padrão por detrás da aparência de individualidade livre: ausência de identidade pessoal! Então – pensei comigo – isso implica dizer que nos espelhamos no reflexo do tempo construído pelo medo de se perder a consciência grupal. O sentido que essa multidão segue é um reflexo da luz da consciência criada no espaço de experiências ao longo da história. Assim, seguimos no caminho apontado pela experiência grupal refletida por cada um em seu interior, mas que no mundo objetivo é o caminho oposto da fonte da luz consciente em si mesmo!
Procurei abordar uma moça que seguia a multidão e indaguei mais uma vez:
Por que vocês caminham nessa direção? O que ela me respondeu:
– Por que juntos saberemos encontrar melhor a felicidade – respondeu.
– Confesso que não entendi – respondi.
– Juntos poderemos trocar experiências humanas e assim descobrirmos a felicidade que deve estar entre nós – respondeu ela.
– Mas, como isso é possível se ao nascermos a felicidade era um milagre da vida no momento em que saímos de um estado para outro de experiências e descobertas? – respondi.
– Juntos e participantes no jogo das emoções ganhamos e perdemos na troca de prazeres físicos e psicológicos. A felicidade é o momento na transição de um estado para outro – respondeu ela.
– Mas se a felicidade é um jogo momentâneo poderemos estar num jogo de sinuca porque o sentido horizontal de experiência material pode ser o condicionamento das energias e dos vícios que realizamos na química e na (macro) física do corpo e pode não ter nada a ver com a dimensão (micro) profunda do espírito – respondi.
Mas uma vez segui em frente e refleti: o medo da perda da consciência coletiva faz com que os indivíduos busquem se fortalecer na coragem do grupo para descobrir no jogo das emoções uma razão lógica de ser feliz sem ser de fato.
Abordei um rapaz cansado vestido de terno e com uma maleta na mão. E indaguei:
Por que vocês caminham nessa direção? O que ele me respondeu:
– Juntos poderemos resolver as nossas necessidades materiais, pois ninguém é uma ilha – respondeu.
– Não entendi. Isto porque ao nascermos a vida não nos deu a necessária consciência da materialidade da vida. A nossa criação naquele momento uterino não foi uma ação necessária e trabalhosa, mas querida e amada por um poder maior espiritual – respondi.
– Ao caminharmos juntos cada um faz uma parte na construção do Todo material. E assim, na relação entre os mais aptos com os menos aptos vencem aqueles que aprendem melhor com o jogo competitivo da adaptação – ele respondeu.
– Isso que você está dizendo é instintivo e se resume em luta e conflito entre grupos distintos que buscam resolver seus problemas através da superação do outro refletido pela objetividade da consciência grupal. A unidade da vida e solução dos problemas serão eternos problemas e aparentes soluções porque em verdade a vida não é um jogo instintivo, mas uma criação poderosa da “mente” e desejo de cada um – respondi.
Deixei o rapaz para trás e iniciei uma reflexão. O medo de perder a consciência grupal fez com que nos apoiássemos na coragem coletiva para resolver a questão profunda e fundamental da felicidade, mas como a força da materialidade foi e é ainda muito grande na estrutura química e física do corpo nos deixamos levar pela superação do outro fora de nós na aparente percepção de que a realidade tinha uma equação matemática racional onde o resultado seria uma quantidade definida pelas variáveis chamadas forte e fraca, bom e mau, qualificado e não-qualificado, superior e inferior e todas as idéias de entes diferentes que a mente e o desejo pudessem conceber. Nesse sentido, o caminho da multidão inconsciente é o da incerteza do caminho, da ignorância de si, da infelicidade na luta consigo mesmo e da materialidade efêmera da vida. Por isso, continuarei seguindo quase que sozinho porque onde está o fim está o princípio de tudo: a morte da consciência grupal – o princípio da transcendência e da vida! Acordei feliz!
Moral do sonho: O sonho é uma realidade e renascimento para quem sabe sonhar!
Prof. Bernardo Melgaço da Silva – bernardomelgaco@hotmail.com

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