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CARIRI – Clima de Natal continua nas ruas com o Reisado

Jovens e crianças do Reisado Decolores Dedé de Luna, do bairro Muriti, no Crato, já fazem apresentações pelas ruas da cidade. Ritual contribui para a formação de cidadãos dotados de memória coletiva e identidade cultural (Foto: ANTÔNIO VICELMO)

Ritual prossegue até esta terça-feira, Dia de Reis. Grupos de rua encenam visita dos reis magos ao Menino Jesus

Crato. O clima ainda é de Natal no Cariri. Na periferia do Crato, os grupos de Reisados revivem uma tradição cristã que começa na noite do dia 24 e vai até o dia 6 de janeiro, data em que os católicos celebram o Dia de Reis, quando os três reis magos – Melchior, Baltazar e Gaspar – adoraram Jesus Cristo, recém-nascido. Nesta data, os católicos encerram os festejos natalícios, com o desmonte dos presépios e a retirada de todos os enfeites natalinos. As principais figuras do Reisado são os três Reis Magos, a Cigana, os Caretas, a Burrinha, a Ema e a Jaraguá. De acordo com a tradição, o reisado sai às ruas a partir do dia 25 de dezembro para louvar o nascimento do Santo Rei e termina no dia 6 de janeiro. Na versão dos mais jovens, Reisado é sinônimo de folga, porque seus representantes saem principalmente aos sábados, domingos e feriados. No entanto, o termo refere-se também a uma dança dramática popular que reproduz, por meios simbólicos, a jornada dos Reis Magos ao encontro do Messias nascido em Belém. As festividades natalinas católicas abrem um ciclo rotativo de comemorações e de celebrações de ritos sagrados, voltados para a afirmação de vida e da morte. Este ciclo de festas religiosas reatualiza fatos históricos ocorridos há mais de dois mil anos e revela a forma alegre como os mais pobres representam tais fatos.

Sabedoria popular

Uma das mais legítimas representantes dessa manifestação cultural é Maria José de Oliveira Luna, conhecida como Mazé, 49 anos, que juntamente com a suas irmãs, Maria da Penha e Expedita Luna, herdaram duas importantes riquezas culturais do Cariri: a sabedoria popular e a desempenho artístico. Filhas do agricultor e mestre da Cultura Dedé de Luna, fundador de um grupo de Reisado masculino, as três imãs cresceram ouvindo o som do Reisado no terreiro de sua casa. Enquanto os brincantes levantavam a poeira do chão batido, elas assimilavam a música e a dança do Reisado. Trabalharam na interpretação de cânticos, confecção de indumentárias e, mais tarde, também na criação de peças (rimas) e na estética do grupo. Atualmente, os grupos folclóricos das irmãs Luna são os mais autênticos representantes dessa manifestação natalina na Região do Cariri, marcada por uma forte religiosidade popular, interpretada e vivida por pessoas simples, que fazem suas orações sempre cantando e dançando.

Mulheres no Reisado

Com a morte do pai, as três irmãs assumiram o comando do Reisado Decolores Dedé de Luna, do bairro Muriti, e coordenam a Lapinha de Mãe Celina, que homenageia sua mãe. Além disso, para estimular o gosto pelo folclore entre as crianças e os adolescentes, criaram o Reisado Infantil e um grupo de dança do coco, chamado Coco Mestre Dedé de Luna do Muriti. O nome Decolores é uma homenagem ao Cursilho de Cristandade, movimento da Igreja Católica que consiste, em princípio, num encontro destinado a orientar os fiéis adultos leigos no sentido de fazerem uma reflexão acerca dos fatos fundamentais da fé cristã e das consequências práticas que dela decorrem, influenciando o comportamento do indivíduo e também as relações que este estabelece com a comunidade.

Formação de cidadãos

A Mestra Mazé é uma das criadoras da Fundação do Folclore Mestre Eloi e, atualmente, integra o seu Conselho de Mestres do Saber Popular. Atenta para o respeito, a fraternidade e a auto-estima da vizinhança, a folclorista contribui para a formação de cidadãos dotados de memória coletiva e de identidade cultural na região do Cariri. Para ela, a única dificuldade para continuar o ofício é conseguir transporte para todos os brincantes.

ANTÔNIO VICELMO
Repórter

TRADIÇÃO

“A grande dificuldade para continuar é conseguir um carro para transportar os brincantes”
Maria José Luna, a ´Mazé´
Folclorista

“Estamos mantendo uma tradição deixada por meus pais e reverenciando o Deus Menino”
Maria da Penha Luna
Folclorista

OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Reisado é manutenção do folclore

O Reisado, que tem origem portuguesa e data do século XVIII, constitui-se num dos mais tradicionais folguedos folclóricos, adquirindo formas singulares de acordo com os costumes de cada região e a identidade cultural do lugar sem deixar de preservar o enredo principal do auto natalino, que é a dramatização da visita dos três reis magos ao Menino Jesus, interpretada por grupos que se fantasiam e saem de porta em porta, anunciando a chegada do Messias, tocando e cantando músicas folclóricas em troca de comida e bebida. Definido como Reisado de Congo, o grupo de Reisados “Dedé de Luna” apresenta uma dimensão religiosa e uma cômica, o que explica a presença de elementos simbólicos como Presépio, Burrinha, Bobo da Corte e Catirina. Além disso, apresenta também uma hierarquia tão verticalizada quanto a sociedade colonial, canavieira e escravista que forjou as bases para a sua recriação artística. Dentre os personagens citados até então, há uma valorização de lendas conhecidas e do Reisado enquanto brincadeira de crianças e adultos. Mas, apesar do número de componentes e da diversidade de figuras, os conflitos sociais não afloram durante as apresentações. Como a tática de muitos brincantes consiste em colocar crianças, adolescentes e adultos revezando-se na atividade, espera-se que o folclore regional permaneça por muito tempo. A proximidade com o Reisado desperta o desejo de participação e um novo olhar sobre os saberes populares e tradicionais. Porém, a idéia não é ganhar dinheiro com apresentações em festas e palcos. Para a mestra, trata-se de manter o folclore e a cultura regional.

ELDINHO PEREIRA DA SILVA *
eldinhopereira@bol.com.br
* Professor, historiador e agente cultural do Imopec, no Crato

Mais informações:
Professores Eldinho Pereira da Silva e Miralva Gudes
(88) 3523.7347
Grupo de Reisados Dedé de Luna
(88) 3521.0204 / 3521.2347


Reportagem: Antonio Vicelmo
Fonte: Jornal Diário do Nordeste


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