02
jan
09

A Moça da Livraria – Dihelson Mendonça

[ Dedicado a Carlos Rafael ]

Enquanto passam diante de mim todas os gênios,
entro porta adentro e contemplo o inevitável. Meu deus!!

E nem era o mar ainda. Era só música!
mas seu olhar deslizava como a espuma por entre os rochedos íngremes do pleno conhecimento das prateleiras. A madrugada lhe era definitiva, assim como todas as impossibilidades
do meu desejo humano, sempre distorcido pelo infinito e pelo idealismo. Bem sei!

E não era também a noite
mas levava consigo os mistérios de todas as sombras
debaixo do braço; De todos os ensaios, de todas as teorias já escritas…
E contidas num vaso encolhido, de forma elipsoidal, todas as emoçoes deste mundo me aguardavam. Eu e meus desertos incrivelmente particulares.
Eu, que sou todo deserto de lágrimas fossilizadas

Ah! quem dera ficar louco nesse instante!
de perder por um só momento que seja, a razão, a um bom motivo que fosse…
mas não! entre a possibilidade daquilo que me restou, e a possibilidade dos universos errantes, de uma existência podre e mesquinha, há barreiras imaginárias e intransponíveis, como caiaques em meio à correnteza

Fiquei velho sem o notar!

Já não creio que possa escalar assim minhas próprias montanhas. Sou todo medo e entulho e vermes E as cantigas das virgens que imaginei nunca me pertenceram e as lembranças imortais nunca aconteceram em quartos sombrios. E os heroísmos dos meus gigantes emudeceram
Sou apenas mais um tolo entre tantos no mundo. Mas quisera apenas metade da vida a ser meio gênio. E quisera todo o gênio e todo o mundo ao mesmo tempo. Sou um mudo que fala, mas não tenho um mundo, afinal, nem nunca o tive.

Que nojo de ser eu mesmo!

Estou terrivelmente só e mesmo assim, sinto todo o universo de bocas gritantes dentro de mim
em hurros alucinantes e ensurdecedores. Já não ouço a minha própria voz dentre tantas que já li e ouvi. Nós, que somos desertos humanos, somos muitas poças de gente errante; Grandes turbilhões de universos díspares de cores, de almas e de conhecimentos flutuantes

E sendoassim tão humanos, e capazes de amar, erramos. E sendo incapazes de amar e de errar, erramos mais ainda! Passa-se o tempo e os meus méritos desceram grotas adentro. Vão-se pelos ares todas as minhas asas e meus diminutos canhões de cera. Explodiram-se meus porões, rasgaram-se as minhas velas e restou-me apenas um naufrágio humano. Não um náufrago, mas um naufrágio completo. Visto-me de seda, de todas as matizes do oriente que as famílias reais ostentam. Mas nada pode consolar aquele que nunca perdeu nada, apenas aquele que há de perder, como a angústia de todo aquele que vive entre dois mundos. E não há dor maior no sofrer do que conquistar tudo aquilo que se deseja…

Eis que passa novamente
Vai pela ala esquerda e segue em frente
olho-a de cima abaixo sem que meus sentidos a percebam
desejando-a apenas pela impessoalidade de um livro estranho
será mortal ? e o seu perfume paira no ar e enche a livraria
E eu vejo canhões de flores amarelas de outono…

Mas não mais a vejo. Saiu ? não creio. Será ?
Perdi ? Corro…corro…corro…corro…
Leibnitz, Kant, Baudelaire, Verlaine passam velozmente por mim
sem me dar conselhos nem lições de filosofia
– Nestas horas sinto impotentes todas as sofias e os logismos. –

Desespero!

Chego a pensar se foi sonho
meus ombros já caem novamente
sento-me assim, inseguro, nó na garganta, e olhar cravado no infinito…
A idade cai-me como luva, como um edifício nas costas
Já não sou mais Don Ruan nem Don Quixote, o galante cavaleiro das livrarias
Creio que a perdi para sempre…

Mas abre-se a porta inesperada
e de repente, a sala brilha toda e contemplo a eternidade
nossos olhos se cruzam e eu vejo o infinito
de todos os mundos possíveis e do que poderia ter sido e não foi um só momento
Já não vejo o tempo, guardião das insônias,
Já não temo o desconhecido, nem o sofrer de todo o ser vivente
Pois nesse momento ela sorriu pra mim, e o mundo não é mais que uma bela música!

Dihelson Mendonça


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