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Um bom texto para reflexão.



A Rosa da Palestina
Postado por Urariano Mota em 29 dezembro 2008 às 9:55
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Um poema de Vinícius ordena, suplica que “Pensem nas crianças
mudas telepáticas. Pensem nas meninas cegas inexatas.
Pensem nas mulheres rotas alteradas. Pensem nas feridas como
rosas cálidas…”. É esse poema, A Rosa de Hiroxima, é essa talha
em versos que ordena, que resiste e insiste em nossa memória,
quando vemos a foto de Somaeah Hassan, de 6 anos, abatida na
faixa de Gaza. Essa flor fuzilada, entre gazes, olhinhos semicerrados,
é a própria Rosa da Palestina. Contenhamos a velocidade da mão,
refreemos a velocidade da escrita, represemos o fluxo da leitura.
Pedimos uma pausa no caleidoscópio, nas luzes fugazes, frívolas,
vulgares do incessante ir e vir do noticiário de todos os dias.
Somaeah Hassan está morta. Calma, buldogues, fechem suas bocas,
canos quentes de balas, suspendam a digitação, noticiaristas,
segurem por um instante a divulgação do mais quente e recente
escândalo. Porque o escândalo já está feito: Somaeah Hassan
está morta. Na foto, seus olhinhos se negam a compreender
o horror das balas que a levantaram do chão de refugiados
de Rafah. Negaram-se é maneira de dizer. São incapazes, nos
seus 6 anos. Mais tempo houvesse, mais vida, outra vida tivesse,
Somaeah compreenderia e se negaria a compreender o horror maior
do seu povo cercado como cães raivosos. E a raiva, em cães, se abate.
Mas a raiva, em gente feita cão, não se abate – apenas cresce,
quando a crianças como Hassan abatem.

Refreemos a mão. É difícil. Mas tentemos.

Era bom, assim pede a paz que nosso peito deseja,
era bom um lugar-comum que nos ajudasse, que nos socorresse.
Dizer, por exemplo, que assim é a guerra, cruel como todas as
outras, que nela não existem santos e demônios, que a guerra
nos transforma a todos em anjos das trevas. Dito isto, seria
melhor dizer que o terror feito pelo Estado de Israel apenas
é uma resposta ao terror sofrido antes por sua gente. Dito isto,
podemos afinal dizer que o mal e o mau têm que ser destruídos,
para que só então a paz volte. Mas, ao chegarmos a este passo,
perguntamos: mas de que mal e maus vocês falam,
caras-pálidas? Pois será que ninguém ainda notou que a nossa
cara tem a cara e o sangue da gente palestina? Que eles,
os palestinos, são a nossa própria cara? Será que ninguém
ainda percebeu que o desespero dos povos palestinos é o nosso
próprio desespero em outras terras e em outras circunstâncias?
Aquele mesmo desespero que acomete a gente em situações
-limite? Ainda que os Estados Unidos mandem fazer a volta ao
mundo uma negra para consumo externo, ela apenas nos
aparece como um novo Al Jolson, com a cara tisnada.
Os interesses de que ela fala não são os nossos. Servem
à mesma rosa atômica que se fez cair em Hiroxima e Nagasáqui.

Então voltemos, mais serenos.Mas, desgraça, descobrimos: serenos,
não temos mais mãos. Temos somente uma grande letargia.
Então quebremos o torpor, voltemos ao princípio.”

A rosa hereditária, a rosa radioativa, estúpida e inválida. A rosa
com cirrose, a anti-rosa atômica” sofreu uma tradução no campo
de refugiados da faixa de Gaza. Ela se fez uma rosa fuzilada,
a Rosa da Palestina, no corpinho frágil de Somaeah Hassan.
Essa menina nos fere como uma filhinha morta.
Ela, em árabe, em dialeto, em outra língua, nos fala
e a compreendemos como compreendemos e amamos uma
própria filha que o nosso sêmen esculpiu. Mais: como um
serzinho esculpido por nós por um nosso irmão. Mais: irmão
com um sentido de irmão mais fundo que o genético.
Mais: com um sentido de irmão mais fundo que o racial.
Mais: com um sentido de irmão mais fundo que o nacional.
Mais,finalmente: com um sentido de irmão que é o próprio
sentido de humanidade. Hassan é a nossa própria humanidade
abatida. Ela se abre em outras rosas que se despedaçam em
Jerusalém. Rosas que em vez de pétalas jogam carnes, fígado,
coração e intestinos.

Já secamos as lágrimas. Não nos perguntem portanto por que
vomitamos. Nós não queríamos ter essas Rosas da Palestina.
.
.Urariano Mota


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